Gente apática, obsoleta, clichê, morna, sem graça, satisfeita e desinteressante, todos nós conhecemos não é? Com facilidade identificamos essas características nos outros, mas será que nós também não estamos assim?
Tenho a impressão que este não é um processo voluntário. E o que todo mundo deseja mesmo é ser feliz.
“Feliz” é felix em latim, que também significa “fértil”, ou seja, felicidade é sinônimo de fertilidade. Fertilidade não é apenas gerar vidas. Fertilidade é também garantir que a própria vida não se perca ou se esterilize.
Para ser “feliz” tem que ser “felix” (fértil), a vida é um exercício de auto aperfeiçoamento constante. Nossa mente necessita de treino — fitness intelectual; atualizações constantes para se manter forte, atualizada, “felix” e interessante…
… Analogicamente, podemos dizer que nossa mente é como um computador super moderno, que faz uso de softwares. Esses “programas” são responsáveis pelo bom funcionamento de tudo: memória, armazenamento de dados; nossas experiências e conhecimentos adquiridos ao longo da vida.
Todos esses dados determinam quem somos e como nos comportamos no presente e nossas expectativas no futuro (medos, crenças e fortalezas).
Percebeu a importância dos “softwares” mentais?!
Assim como no mundo dos computadores nossos programas e atualizações tornam-se ultrapassados e obsoletos e, quando isso acontece (e acontece), sem que percebamos, passamos a repetir sempre as mesmas ideias e comportamentos. Nosso vocabulário empobrece e nos tornamos “lugar comum”, pessoas desinteressantes e infelizes (não férteis).
No entanto, ao viver as inúmeras dimensões de nossa existência — Família, trabalho, espiritualidade, amizade, cidadania, entre outras — Na busca pela tão sonhada e utópica felicidade, nos permitimos ficar satisfeitos quando acreditamos tê-la alcançado.
O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: “o animal satisfeito dorme”. Por trás dessa aparente obviedade está um dos mais profundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia existencial, na redundância afetiva e na indigência intelectual.
O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão, rendendo-se à sedução do repouso e imobilizando-se na acomodação.
A advertência é preciosa: não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento. A satisfação acalma, limita, amortece (Cortella).
[…]
Uma pausa para lhe contar um pouco de minha história […]
Na empresa que trabalhei nos últimos cinco anos, uma grande multinacional americana, sempre fui um profissional acima da média; motivado, engajado, responsável e dono do meu negócio. Gestor na área de logística responsável por 24 plantas nos Brasil com um grande e competente time que dependia de minha liderança e parceria para tocar uma mega operação varejo.
Além de meu escopo, que já era desafiador, acumulava funções como: revisão de leis da área logística, revisão de processos e treinamentos (viajava o Brasil aplicando treinamentos de melhoria contínua, segurança, motivação e transportes). Era comum me ver trabalhando até muito tarde. O telefone funcionava 24 horas por dia (bem vindo à logística), e-mails eram respondidos depois da meia noite e os resultados sempre entregues…
… Eu era o cara (ou achava que era). Até que chegou o dia que fui desligado. Os motivos? Os mais nobres possíveis, mas demissão é sempre punk, ainda que haja “romantismo” nas motivações…
Vou te pedir mais uma pausa, uma paradinha para contar uma parábola e depois finalizo minha história — pode ser?
— Que bom que aceitou. Mas não deixe de ler o final, é empolgante.
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“Os japoneses sempre adoraram peixe fresco, porém as águas perto do Japão não produzem muitos peixes há décadas.
Assim, para alimentar a sua população, os japoneses aumentaram o tamanho dos navios pesqueiros e começaram a pescar mais longe do que nunca.
Quanto mais longe os pescadores iam, mais tempo levava para o peixe chegar. Se a viagem de volta levasse mais do que alguns dias, o peixe já não era mais fresco.
E os japoneses não gostaram do gosto destes peixes. Para resolver este problema as empresas de pesca instalaram congeladores em seus barcos.
Eles pescavam e congelavam os peixes em alto-mar. Os congeladores permitiram que os pesqueiros fossem mais longe e ficassem em alto mar por muito mais tempo.
Entretanto, os japoneses conseguiram notar a diferença entre peixe fresco e peixe congelado, e é claro, eles não gostaram do peixe congelado.
Entretanto, o peixe congelado tornou os preços mais baixos. Então as empresas de pesca instalaram tanques de peixe nos navios pesqueiros.
Eles podiam pescar e enfiar esses peixes nos tanques, “como sardinhas”. Depois de certo tempo, pela falta de espaço, eles paravam de se debater e não se moviam mais.
Eles chegavam cansados e abatidos, porém, vivos.
Infelizmente, os japoneses ainda podiam notar a diferença do gosto. Por não se mexerem por dias, os peixes perdiam o gosto de frescor.
Os japoneses preferiam o gosto de peixe fresco e não o gosto de peixe apático. Então, como os japoneses resolveram este problema? Como eles conseguiram trazer ao Japão peixes com gosto de puro frescor?
PARA, PARA, PARA, PARA (estilo João Kleber entendeu?)
Enquanto você pensa na solução do frescor do peixe eu finalizo minha história!
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… As primeiras semanas sem a rotina do trabalho foram as mais desafiadoras; sentia um vazio gigante e parecia que um pedaço de mim tinha sido arrancado, mas nunca tive muito talento para vitimismo.
Tratei logo de procurar o que fazer: resolvi trancar uma segunda graduação que já estava em andamento e me matricular em um MBA. Comprei cursos online e fiz outros tantos gratuitos (até agora um total de 16).
Nos primeiro seis meses li mais de 25 livros, assisti mais de 100 horas de palestras assertivas que transformaram meu mindset e trouxeram-me novas experiências e o melhor…
… Vi-me de novo “felix”. Hoje sou um profissional muito melhor do que era. Mais preparado e gabaritado. Cresci em todas as áreas, consequentemente sou melhor pai, amigo, cidadão, ouvinte e líder.
Talvez você esteja se perguntando — os cursos te mudaram?
E a resposta é — ajudaram, mas o que foi transformador mesmo foi o network que fiz e a curadoria de conteúdo que recebi — Conectei-me com pessoas de todo o Brasil (alguns cursos eram online), dos mais diversos segmentos e profissões. Gente disruptiva, “maluca” e que estão fora da caixa.
Enfim, uma mudança deliciosa graças ao tubarão.
Que tubarão?
Voltemos à história da parábola. Já pensou na solução para o frescor do peixe?
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Para conservar o gosto de peixe fresco, as empresas de pesca japonesas ainda colocam os peixes dentro de tanques. Mas, eles também adicionam um pequeno tubarão em cada tanque.
O tubarão come alguns peixes, mas a maioria deles chega “muito vivo” no mercado. Os peixes permanecem em estado de alerta a todo momento. Em outras palavras, permanecem frescos porque são desafiados.
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Este é o segredo: ter um tubarão no seu tanque. Foi o que aconteceu comigo. Ficar disponível para o mercado de trabalho (versão criativa para desempregado) foi o tubarão que faltava em meu tanque.
Nem sempre a crise é ruim, depende do ponto de vista. Obviamente que não é necessário esperar o “pior”, na verdade se você está lendo está artigo, certamente já é uma pessoa que não aceita ser menos que excelente.
O que você precisa reconhecer é que seus softwares necessitam de atualizações.
Novos programas: cursos, livros, artigos, revistas, vídeos (TEDs) e etc;
Network: muitas vezes fechados em nosso mundinho achamos que tudo é do tamanho que conseguimos enxergar e, não é. Se conectar com outras mentes pensantes e aceitar o novo é preciso;
Reconhecer suas limitações: gosto sempre de citar o grande Sócrates que afirmava que, estava a frente de todos por saber que que nada sabe. Assim, sabendo disso, tinha vantagem sobre aqueles que acham que sabe tudo (confuso? leia de novo).
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Permita-me reforçar o perigo da satisfação total: “ela conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento.
A satisfação acalma, limita, amortece”.
Ter um tubarão no seu tanque o ajudará a estar sempre fresco, ou seja: atualizado, quente, alerta, motivado a nadar, empreender, inovar e ser alguém sempre interessante, feliz, “felix” e claro: fértil.
Vamos juntos nessa!
Qual é o tubarão que falta no seu tanque?
Até a próxima!