Emprego, carreira ou vocação, o que você tem?

“Se você tem um emprego CLT é escravo de alguém”, afirmou um amigo. “Quem não faz o que ama vive em uma prisão”, provocou outro. “Nada disso, é possível ser feliz trabalhando em regime CLT e nem sempre fazendo o que gosta”, disse a única mulher da mesa… E lá estava eu, emergido em um papo de emprego, carreira, vocação e satisfação pessoal com amigos em um Pub de São Paulo.

Prestes a posicionar-me, me dei conta de que Pedro (usarei nomes fictícios por questão de sigilo), o que falou de escravidão, é coordenador de projetos em uma empresa privada. O Jorge, o que falou de prisão, vive sonhando em abrir um negócio próprio no ramo da culinária, mas por enquanto é engenheiro de processos na indústria. A Laura, a que acredita na felicidade, trabalha em um negócio da família e pensa em ir para uma empresa privada, pois acha que trabalhar com familiares é um saco.

Nem precisa dizer que a conversa foi longe não é mesmo. Até a mesa do lado ficou com vontade de participar da discussão — uma moça olha pra gente e diz —, no fim do mês o que importa mesmo é a grana que cai na conta, o resto é puro teatro. Bem, não entendi o que ela quis dizer com teatro, mas fiquei imaginando um bocado de coisas…

E você, o que acha?

CLT é mesmo escravidão? Quem trabalha pra outros vive aprisionado? Fazer o que não gostamos gera infelicidade ou dá pra ter satisfação pessoal em tudo isso?

Sim, sim. Eu sei que não é fácil responder. Uma série de variáveis se interpõe as nossas convicções não é mesmo?

Segundo dados da ABRH70% dos brasileiros estão insatisfeitos com o trabalho: 65% afirmam não fazerem o que gostam, e 68% se sentem desmotivados por não terem o reconhecimento que julgam justo por parte dos seus chefes. A liderança tem papel fundante na motivação da equipe.

A PRISÃO

George Gurdjieff, filósofo e mestre espiritual Greco-armênio, certa vez fez uma pergunta para seus alunos: se um prisioneiro deseja fugir de uma prisão, qual a primeira coisa que ele precisa saber?

“Ele precisa saber quem é o guarda”, respondeu um aluno. “Precisa saber onde está à chave”, sugeriu outro.

“Não”, disse Gurdjieff, a primeira coisa que você precisa saber se quiser fugir da prisão é que está na prisão. Até descobrir isso é impossível fugir.

Gurdjieff dizia: “você está numa prisão”. Contudo, às vezes, ao invés de dizer “você está numa prisão”, dizia: “você é a prisão” — o que faz sentido pra muita gente.

Você está em uma prisão ou você é a prisão?

Quem não conhece alguém que vive no modelo 5×2: cinco dias de tristeza (segunda a sexta) e dois de alegria (sábado e domingo). Que trabalha com a cabeça nas férias e que acorda amaldiçoando o chefe, a empresa e até o cosmos

Para saber se está, ou, se é uma prisão, é preciso entender, clarificar, especificar o que é carreira, emprego e vocação. Você sabe qual a diferença?

EMPREGO, CARREIRA OU VOCAÇÃO

Para explicar a diferença entre as três, recorrerei à psicóloga organizacional Amy Wrzesniewski da Escola de Negócios da Universidade de Nova York que pesquisou o significado do trabalho para um grupo variado de pessoas…

Na pesquisa percebeu-se que, apesar de ocuparem cargos similares e desenvolverem as mesmas funções, cada pessoa percebe o trabalho de forma diferente — independente da hierarquia da posição. Para a pesquisadora, gostar do trabalho independe da profissão e muito mais da forma como o percebemos.

EMPREGO

Algo que é feito das 09h às 18h em troca de pagamento, ou seja, troca-se a força de trabalho por um salário. O prazer estará sempre externo ao local onde se ganha o dinheiro…

CARREIRA

Um sistema de progresso e promoções ao longo do tempo no qual recompensas são usadas para otimizar o comportamento. Assim, trabalha-se pelo prestígio,  status e poder. Desejam ascensão profissional e o trabalho é o meio de ter dinheiro.

VOCAÇÃO

Algo que nos sentimos impelidos a fazer, independentemente de fama ou dinheiro. O próprio trabalho é a recompensa. As atividades executadas fornecem o benefício intrínseco: alegria e satisfação.

UMA QUESTÃO DE MINDSET

Pessoas com o Mindset fixo e, que percebem o trabalho como algo impossível de ser feliz, seja no regime CLT e/ou trabalhando com o que não gosta, tendem a sofrer todas as síndromes possíveis do trabalho. Enxergam o que fazem e onde estão apenas como um emprego e no máximo como um degrau para sua carreira. Não buscam e muito menos empregam prazer, paixão, tesão pelo que fazem…

No entanto quando orientadas pela vocação tem maior probabilidade de sucesso, e não somente isso, mas se sentem mais realizadas e bem sucedidas com o que fazem. Uma questão de escolha; de decisão.

COMO SÃO OS PROFISSIONAIS BEM SUCEDIDOS

“Fazer sempre o melhor, na condição que se tem, enquanto não tem condição melhor para se fazer melhor ainda” é uma frase que pra mim faz todo sentido. Revela caráter, ética e honra.

Não quero parecer Caxias nem mesmo lançar um monte de clichês aqui, mas acredito de verdade que a felicidade depende de estado de espírito, de como o profissional decide perceber sua ocupação — emprego, carreira ou vocação?!

É necessário decidir ser feliz. Não estou falando de se conformar com a mediocridade, mas de engajamento onde se está, fazendo o que se faz com dedicação, amor e excelência, trabalhando para quem quer que for.

Trabalha em regime CLT/aceitou a posição? Dê o seu melhor. Faça como se o negócio fosse seu; tenha sentimento de dono. Não faz o que ama? Bem vindo ao clube de milhões de profissionais, pois mesmo trabalhando com o que se é vocacionado haverá momentos em que terá que fazer o que não gosta. Assuma um papel de protagonismo.

Nunca vi alguém com essa postura, infeliz ou empobrecido.

Não seja uma prisão. Não faça do seu trabalho uma prisão. Seja o melhor profissional que conseguir ser — o primeiro chegar, o último a sair, entregando sempre mais do que esperam de você.

Como me posicionei na bate papo do Pub?

Disse que dá sim para ser feliz trabalhando; seja como empreendedor ou CLT e, que trabalhar com o que se ama é uma utopia que deve ser perseguida, mas ainda assim uma utopia. Escravidão é um estado de espírito, o profissional deve jogar o jogo com lucidez, libertando-se da prisão que é comum a grande massa que vive uma vida profissional medíocre reclamando de uma realidade que nem mesmo tentam transformar. É preciso afastar-se do vitimismo e tornar-se protagonista…

Vocacione-se e construa uma carreira de muito sucesso em seu emprego atual ou no próximo.

Até a próxima!

Achiles Rodrigues