Semana passada, numa reunião de diretoria, ouvi uma frase que me fez gelar a espinha. O diretor, com um sorriso de orelha a orelha, soltou:
“Com a IA, a gente consegue cortar metade do time. É impressionante!”
Fiquei pensando no quanto ainda existe gente medindo inovação com a régua da planilha.
A mentalidade do corte é sedutora — e é justamente por isso que ela é tão cara.
A empresa corta pra economizar, e no processo amputa o próprio crescimento.
O Fato é simples: IA não é para substituir gente. É para alavancar gente.
Mas a maioria, a esmagadora maioria, ainda faz a conta do pensamento pequeno:
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“Tenho 5 vendedores? Coloco IA, viro 2.”
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“Tenho 30 no SAC? Coloco IA, viro 10.”
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“Tenho 8 analistas? Coloco IA, viro 3.”
Esse é o reflexo da empresa que opera olhando para dentro, para o próprio umbigo, e não para frente.
Reduz a folha, mas também reduz o fôlego. Economiza no salário e, sem perceber, perde o mercado.
A virada de chave é simples: multiplicar em vez de subtrair
E se a gente pensasse diferente?
Se a IA consegue aumentar a capacidade dos 5 vendedores em 40%, por que transformar 5 em 2… se você pode transformar 5 em 7 (em capacidade de entrega e resultado)?
Se o SAC tem 30 pessoas e a IA reduz 60% do volume de chamadas repetitivas, por que diminuir o time… se você pode dobrar a base de clientes sem precisar dobrar a estrutura de atendimento?
Se a sua operação ganha velocidade e automação, por que cortar gente… se você pode abrir novas regiões, lançar produtos inéditos, explorar novos canais de venda?
O jogo não é sobre substituição. O jogo é, e sempre foi, sobre alavancagem. Mas, e esse é o ponto: poucos estão jogando o jogo certo.
Empresas pequenas pensam em custo. Empresas que dominam o mercado pensam em valor.
É só dar uma olhada no tabuleiro global:
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A Amazon não usa IA para cortar atendente, mas para entender o que você quer comprar antes mesmo de você saber.
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A Salesforce usa IA para turbinar o vendedor com insights cirúrgicos, não para demiti-lo.
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A Nubank, aqui no Brasil, usa IA para escalar o atendimento e atender mais gente, melhor, mais rápido.
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A Alibaba, na China, usa IA para prever a demanda com uma precisão assustadora — o resultado? Menos ruptura, mais venda, mais fidelidade do cliente.
Ou seja: quem usa IA para economizar, sobrevive. Quem usa para crescer e dominar, transforma o mercado.
A nova matemática dos negócios é exponencial
A conta velha era linear: “Quanto eu corto?”
A conta nova é exponencial: “Quanto eu multiplico?”
Em vendas:
Se cinco vendedores vendem $X$, com a IA eles podem vender $1.6X$ ou até $2X$.
Não porque a IA vende no lugar deles, mas porque ela elimina o trabalho repetitivo e “chato” (preencher CRM, digitar follow-up) e devolve o tempo para o que realmente gera valor: conversar, conectar, resolver o problema do cliente.
No Atendimento:
Se trinta pessoas atendem cinquenta mil clientes, com a IA elas podem atender cento e vinte mil clientes mantendo o mesmo time. Isso não é corte. Isso é crescimento com custo marginal quase zero.
Histórias de quem virou o jogo
Deixa eu te contar duas histórias que ilustram bem isso.
1. O time de monitoramento que virou uma máquina
Uma empresa de operação logística, cliente nosso, implementou IA na torre de controle. A ideia não era substituir ninguém, mas criar uma “estagiária digital” para os operadores.
A IA varria os primeiros alertas de desvio operacional, cruzava dados de histórico, sugeria follow-ups e, o mais importante, priorizava os desvios com mais chance real de prejudicar os dez principais KPIs.
O resultado? Em seis meses, a eficiência operacional subiu 45% sem contratar uma única pessoa a mais. Ninguém perdeu o emprego. Pelo contrário: teve gente sendo promovida porque finalmente conseguiu performar no que sabia fazer — analisar, comunicar; se relacionar e não digitar planilha.
2. A logística que virou vantagem competitiva (e reduziu o frete em milhões)
Outro caso: uma grande indústria de bens de consumo estava sufocada pelo custo do frete, que disparava por causa da ociosidade na frota e dos caminhões rodando abaixo da capacidade máxima.
Eles criaram um modelo de IA que passou a ser o “cérebro da roteirização”. A IA não só calculava a melhor rota, mas cruzava dados em tempo real sobre:
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Ocupação do Caminhão: Maximizando o volume de carga em cada viagem, minimizando espaços vazios.
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Ociosidade: Preenchendo retornos (o famoso “frete de volta”) que antes eram feitos com o caminhão vazio.
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Tempo de Pátio: Otimizando os slots de carga e descarga para reduzir o tempo que o caminhão ficava parado no CD (Centro de Distribuição) ou no cliente, transformando horas perdidas em tempo rodado.
O Resultado? Não houve corte de motoristas ou do time de logística. A equipe passou a trabalhar melhor, focada em executar o que a IA otimizava. Em menos de um ano, a empresa não só aumentou o volume de entregas, como reduziu a conta frete em 18% e, de quebra, ganhou agilidade pra competir com gigantes.
Isso não é corte. É inteligência operacional que transforma um custo enorme (frete) em um motor de eficiência, permitindo que a empresa seja mais competitiva no preço final do produto.
O pedágio da transformação
Mas pra chegar nesse nível, teve um pedágio.
Aprendizado, erro, desconforto, reprogramação.
Gente que precisou desaprender o velho pra aprender o novo.
Todo avanço cobra um preço — o pedágio do crescimento.
E esse, meu amigo, não dá pra pagar no boleto.
É pago com:
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Humildade para aprender uma nova forma de trabalhar.
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Disciplina para insistir mesmo quando o resultado demora.
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Coragem para desapegar da planilha e dos processos velhos.
As empresas que querem colher os frutos da IA sem pagar esse pedágio ficam presas no looping do curto prazo: otimizam, reduzem, cortam, reportam um resultado bonito no mês… e no trimestre seguinte, estão estagnadas.
Enquanto isso, as que entenderam o jogo seguem escalando, abrindo novos mercados e contratando — porque a IA virou uma força multiplicadora, não uma guilhotina.
Permita-me uma provocação
Quem só fala de eficiência mostra que ainda não entendeu o espírito da era digital.
Eficiência é o básico. Escala é o jogo.
Cortar custo é fácil. Crescer de forma inteligente é o que separa quem vai liderar da multidão que vai reclamar.
Peter Drucker já dizia:
“Não existe nada menos produtivo do que tornar eficiente o que nunca deveria ser feito.” A maioria está tornando eficiente o obsoleto — processos velhos, métricas velhas, culturas velhas.
Para encerrar, fica a provocação que resume tudo:
Quem usa IA pra reduzir gente, economiza migalha.
Quem usa IA pra escalar gente, constrói império.
A pergunta não é “quanto eu corto?”
A pergunta certa é:
“Quanto eu deixo de ganhar quando penso pequeno?”
E você, já decidiu se vai usar a IA pra cortar gente… ou pra construir império?