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Como a gourmetização da liderança vem matando a produtividade e desbotando a criatividade

Tenho saudades é da barbearia raiz. A gente só ia, sentava naquele sofá desgastado pelo tempo e esperava por nossa vez de fazer a barba. Sem agendamento por aplicativo, sem risco de não ter mais vaga, sem frescura.

Marcão, que fazia minha barba, responde lá do fundo:

— Os “véio” tão sempre reclamando da tecnologia. “Tamo” acostumado.

O cliente provocador, o Junior, que é analista de mercado financeiro numa dessas fintechs da moda (que ironia), responde:

— Não é questão de ser “véio” ou novo, mas de ser enganado pelo efeito desse maldito raio gourmetizador que vem atingindo tudo nos últimos tempos. É só colocar umas firulas que o preço triplica e o negócio fica cheio de frufru.

Pronto, nessa hora a resenha se instaurou.

A galera que tava cortando cabelo, fazendo barba ou só tomando uma “breja”, desenterraram exemplos de coisas e serviços aos montões que foram gourmetizados:

A barraquinha de sanduíche virou foodtruck, o picolé virou paletas. Nem mesmo a pamonha vinda de Piracicaba escapou, agora, é massa de milho verde orgânico aglutinado com leite de côco e açúcar…

Sei que tá passando outros tantos exemplos ai na sua cabeça, não está?! Deixe nos comentários!

Eu peguei o tal tempo da barbearia raiz que o Junior falou. Mas pra ser sincero, prefiro a de hoje…

Pelo aplicativo marco meu horário, escolho meu barbeiro e o serviço que quero fazer.

No meu caso só barba mesmo. No entanto, não vou até lá só pela barba.

Gosto da toalhinha quente, da esfoliação e da massagem feita com uma maquininha poderosa que os caras vestem na mão e que vibra pra caramba.

Além de tudo, róla um bom café expresso, cerveja artesanal e cremes para cuidar dos valiosos fios da tão amada barba, que cá pra nós; tá na moda. Assim como a liderança.

Se você como eu, tem ouvido falar muito sobre liderança, mas, em contrapartida, tem tido a impressão que bons líderes estão cada vez mais em falta, você está lendo o artigo certo…

LIDERANÇA, GESTÃO E MUNDO DO TRABALHO

Liderança, gestão e mundo do trabalho é sem dúvida um dos assuntos da moda.

Tem muita gente falando sobre. O que é muito bom.

Lá em casa não foi diferente, meu pai, sujeito raiz, andou também reclamando que no tempo dele as coisas eram mais simples e, que hoje em dia, as coisas andam muito gourmetizada.

Daí uma luz se acendeu: poxa vida, duas vezes, o mesmo assunto e na mesma semana.

Hum, pensei logo; tem coisa aí!!!

Claro que ele não usou o termo gourmetizar, mas falou sobre a tendência gourmetizadora de todos os conceitos, produtos e funções que vem assolando a nossa sociedade (dramatizei propositalmente a frase).

Dizia ele:

— Estava vendo o jornal outro dia e um rapaz falava sobre a era das startups — falou sobre perfil empreendedor, mind-alguma coisa, liderança disruptiva e mais um monte de palavras que eu nunca nem ouvi falar. Acho que era tudo inglês.

— O camarada falava bem, mas de um jeito todo rebuscado que, no fim, ele falou, falou, falou, falou e num disse quase nada. Por fim, acho que o que ele queria falar é que o jovem tem que abrir uma empresa e virar empresário.

E sobre a tal liderança disruptiva pai, o que foi que ele disse? Perguntei.

— Disse que o líder tem que inspirar a equipe, colocando o pessoal pra pensar fora da caixa, com uma visão de inovação e criatividade. Foi isso aí. Fiquei pensando e até agora num sei como faz isso.

Na hora eu ri com ele e falei igual o Marcão, meu barbeiro:

— Ê pai, tu tá véio mesmo hem. Tem que se atualizar. As coisas estão mudando. O mundo é outro.

No que ele me respondeu:

— Num tem nada de o mundo é outro. O mundo é o mesmo. Mais moderno e cheio de tecnologia? Certamente. Mas de resto; o dono da firma é o empreendedor, a startup é a firma, o tal líder disruptivo é o chefe que conversa com os funcionários. Ou seja, se tirar as palavras difíceis, tá tudo igual.

E pra você que gosta de falar de liderança deixa eu te dar um papo reto filhão:

— Liderar, fazer gestão, trabalhar, tem a ver com gente. E gente é gente. Cheia de sonhos, medos e dúvidas. Tá na venda, na compra, na fabricação, na logística, em todo lugar. Então seja o mais SIMPLES possível. Ao invés de simplificar vocês tão complicando tudo, e depois se perguntam por que que dá errado!

Eu entendi o que ele estava dizendo, mas em um primeiro momento, toda aquela sua fala não me levou a reflexão.

Mas daí no outro dia; pá.

Essa verdade ecoou nos labirintos do meu ego.

Será que eu sou um desses caras que fala, fala, fala pra caramba, de uma maneira complicada, e, as pessoas acabam entendendo muito pouco?

Toda verdade passa por três estágios. No primeiro, ela é ridicularizada. No segundo, é rejeitada com violência. No terceiro, é aceita como evidente por si própria. Esse Arthur Schopenhauer era mesmo o cara.

Será que a até a liderança foi Gourmetizada?

COMO É O DISCURSO NO MUNDO “MODERNO”

É preciso setar nosso Mindset para a inovação. É o que o Board da companhia espera de nós. Pois nesse mundo V.U.C.A, quem não se reinventa fica obsoleto. Nossos stakeholders esperam ações e resultado Disruptivos. Com espírito Empreendedor devemos adotar a rapidez de uma Startup e encontrar nosso Break-even para operar.

Quem está no mundo corporativo moderno está acostumado com discursos como esse.

Eu mesmo já ouvi vários assim. Sempre em Workshops, fazendo Brainstorming, ou realizando Benchmarkings pra definir o Budget da área, bem como os Headcounts e/ou o treinamento para os leaderships.

Taleb talvez explicaria essa nossa antifragilidade evolutiva em torno do caos impositivo dessa desenfreada necessidade de gourmetizar tudo.

Mas alerto: não se trata somente da famigerada gourmetização, ou de implicância com a língua da rainha, ou mesmo da gourmetização de termos e funções pelo uso apelativo do inglês, mas da falta de simplificação.

PODEMOS SIMPLIFICAR?

As pessoas acham chick colocar duas ou três palavras da língua inglesa em uma frase; ou seja, gourmatizar o discurso.

Acham style (desculpa) complicar a informação com gráficos miraculosos. E-mails codificados com termos tão rebuscado que só a NASA decifraria.

A pergunta é: as pessoas estão entendendo? O caminho fica mais iluminado depois de tudo?

Se a resposta for não, simplifica vai!

Não acho que qualquer outro tempo seja melhor que o que vivemos agora. Gosto não só da barbearia como ela é hoje, mas também do mundo corporativo como está e como vem se transformando.

Cada vez mais compreende-se que o capital humano é vital para o sucesso de qualquer negócio. As novas gerações vêm imprimindo mudanças significativas no modelo organizacional.

Os colaboradores conectados em seus computadores de bolso estão mais bem informados, capacitados e prontos. Falam sobre tudo. Basta um clique e são capazes de opinar desde futebol, mercado financeiro e ciência política.

Acabou a era do poder pela informação centralizada. Colaboração é a palavra de ordem.

Cada vez mais o papel do líder é ser parte integrante de sua equipe e não o seu cacique.

O líder do novo momento é aquele que sabe fazer as perguntas corretas e não o que oferece respostas.

O líder efetivo tem cheiro de gente. Conhece e “lê” pessoas, comportamentos, sinais e palavras. Ou melhor, o que está por trás de cada uma delas.

“A coisa mais importante da comunicação é ouvir o que não está sendo dito”. Peter Drucker

Ao gourmetizar a comunicação/relações o líder está construindo paredes entre ele e seu ouvinte. É preciso fazer com que o entendimento flua de forma simples e clara.

Liderar é se conectar ao outro de tal forma que consiga extrair o melhor que cada pessoa.

No TED Talk intitulado “Lidere como os Grandes Maestros”. Que pode ser assistido abaixo, com legendas em português. Itay Talgam fala da importância da comunicação do líder como um maestro.

Uma pesquisa realizada pela Right Management em 15 países e com 30 mil pessoas constatou que os colaboradores satisfeitos produzem até 50% a mais e elevam os resultados da organização.

Em outro levantamento realizado pelo Center for Positive Organizational Scholarship, da Universidade da Califórnia, foi mensurada a relação entre felicidade e produtividade. Os profissionais mais felizes produziam cerca de 31% a mais e as vendas eram 37% mais altas.

A felicidade dos funcionários também influencia diretamente na criatividade e os motivados costumam ser três vezes mais criativos.

Gourmetizar a liderança?

Pra quê?

O maior diferencial competitivo de um grande líder nesse novo cenário é ser cada vez mais humano, adotando uma comunicação clara e simplificada.

Até a próxima!

Achiles Rodrigues