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A nova roupa do rei: os perigos do orgulho da liderança

O monarca do alto de sua vaidade foi sutilmente seduzido pelo alfaiate que, vindo de terras distantes, garantiu ter descoberto um tipo de tecido tão belo e de qualidade tal que somente os inteligentes poderiam ver.

– Oh! Mas que descoberta fantástica! – disse o rei. – Traga-me já esse tecido e faça-me a roupa; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.

O alfaiate velhaco tirou as medidas do rei. Os meses se passaram sem que a tal roupa fosse entregue. Naturalmente o contratado ia sendo remunerado pelos serviços prestados. O rei ficou impaciente e foi com seus ministros a oficina do tecelão, que, malandramente ao avistar o rei disse:

– Seja muito bem-vindo Vossa Majestade. Aqui está sua linda roupa real. Mostrando a mesa de trabalho vazia.

O rei não via nada, mas como não queria passar por tolo, respondeu:

– Oh! Como é bela!

Então o alfaiate fez de conta que estava vestindo a roupa no rei, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas:

– Vossa Majestade está tão elegante! Todos o invejarão!

A galera ao redor soltavam falsos suspiros de admiração pelo trabalho do alfaiate. Nenhum deles queria que achassem que era incompetente ou incapaz. Mas a verdade é que não viam nada.

A notícia correu toda a cidade: o rei tinha uma roupa que só os inteligentes eram capazes de ver. Então, o rei orgulhoso decidiu sair para se mostrar ao povo, desfilando pela cidade, com sua comitiva real o acompanhando.

Todas as pessoas fingiam admirar a vestimenta do rei, afinal, ninguém queria passar por estúpido. Foi então que, uma criança, em toda a sua inocência e pureza, gritou:

“O rei está nu”!

Ninguém conseguiu conter o riso. Todos gargalharam e só então o rei compreendeu que fora enganado. Envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.

O conto: A Roupa Nova do Rei é simplesmente genial; uma estória sobre soberba, orgulho e vaidade dos poderosos. O original é do dinamarquês Hans Christian Andersen. E como verá no link, fiz pequenas alterações pra deixa-lo mais fluido (qualquer resquício de pretensão é impressão dos invejosos).

Embora esteja me coçando pra fazer comparações entre a monarquia da fábula e a monarquia dos dias atuais: CEOs, diretores, cartolas, gerentes e gestores; não me deixarei cair em tentação.

Estou muito tranquilo. Certamente no mundo dos negócios contemporâneo, especialmente em terras tupiniquins, não existe essa coisa de soberba, orgulho e vaidade. Essas mazelas só acontecem no Reino da Dinamarca ou na Guatemala, como costuma dizer meu amigo Eduardo Barradas.

Está se perguntando se não falarei por medo? Não, num é medo não moço. Como dizia Riobaldo ao longo de Grande sertão veredas: “Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem.

Cazuza já havia predito que “Mentiras sinceras nos interessam“. Não quero retaliações, afinal de contas, não posso me dar ao luxo de ser um maior abandonado, uma vez que “Raspas e restos” me interessam!

Se você me acha ridículo por citar no parágrafo acima quase toda a música de Cazuza com Barão vermelho: Maior abandonadoeu concordo. Tô começando a acreditar que sou mesmo. Era isso que sempre dizia uma grande amiga minha – Achiles você é ridículo.

Vamos voltar ao assunto do artigo.

Não falaria porque não sei; não tenho certeza. Mas como já chamamos pra cá Riobaldo, vou pegar mais uma fala emprestada desse matuto pra dar nova conotação ao que direi.

Dizia ele: Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

Desconfio que quando o homem fica muito poderoso; podendo mandar prender e soltar; promover e demitir; aprovar e recusar; alegrar e entristecer as pessoas; mandar e desmandar; chegar e sair a hora que quer sem dar satisfação a ninguém e, todas as atribuições da posição de “monarca”, ele fica também exposto a muitas arapucas…

As pessoas batem continência. Concordam sempre com ele. Bajulam. Presenteiam. Se aproximam; puxam o saco. Escondem os problemas; mentem. Afinal, ofender o chefe dos chefes, podem priva-los das benesses naturais de serem os queridinhos do Big Boss.

Com tanta “gente boa” massageando seu grande ego, o “monarca” aos poucos vai acreditando que é infalível, se envaidecendo, baixando a guarda e, pá. Vem um menino com toda sua ingenuidade e diz que o chefe está sem seu traje, ou que se tornou um ultraje; não estando mais a rigor; ficando pelado; nu com a mão no bolso.

Puts, agora foi ridículo demais até pra mim. Desculpe, lancei mais um rockzinho antigo que não tem perigo de assustar ninguém (MEUS DEUS, no pedido de desculpas citei Let Me Sing, Let Me Sing do mago Raul). Parei tá. Prometo. Deve ser influência de escrever no sábado. A partir de agora sem mais interrupções no texto, tá decidido. Pra isso recorro ao profeta Zaratustra de Nietzsche:

Demore o tempo que for para decidir o que você quer da vida, e depois que decidir não recue ante nenhum pretexto, porque o mundo (ou a música?) tentará te dissuadir.

É assim que cai aqueles que pareciam infalíveis: o super técnico que é demitido do clube. O CEO consagrado que por livre e espontânea pressão resolve “deixar o cargo”. O gerente que acaba com os lucros e tantos outros que fracassam por causa do orgulho e soberba.

Desconfio que o remédio pra esse mal antigo, que acaba por alcançar não só os poderosos, mas também aos que pouco poder tem, sejam dois conselhos: um pra quem é o líder e outro pra quem é o liderado…

Quanto mais alto chegar na carreira e na vida; mais procure se aproximar do chão da fábrica, do CD, do escritório. Ouça, abrace, encontre e fale com seus “súditos”. Tenha perto de você pessoas que discordem de você, e, te digam isso, aliás, tem uma máxima de gestão que é certeira: se você tem três gerentes, e os três concordam a respeito da mesma coisa, você só precisa de um deles.

Você que é liderado, mas alguém que tem voz na mesa e não fala a verdade, mesmo vendo que o rei está nu, ou a ponto de cometer um erro gravíssimo; você é um covarde interesseiro puxa saco. Que por medo de ofender, magoar; não ficar tão bem na foto e perder as regalias da zona de conforto; se omite. Mas consigo te entender; podem achar que você é um menino que está dizendo que o rei está nu. Só se lembre que as vezes, só os “meninos” tem a coragem necessária.

Como disse, não tenho certeza se isso acontece fora da estória; só desconfio que sim. A vida corporativa é bem divertida, uma verdadeira “comédia corporativa”. Encontraremos muitos personagens, uns atuando muito bem outros nem tanto. Sempre chegará o momento que a nudez aparecerá.

Até a próxima!

Achiles Rodrigues